Paço da Vala
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Non nos a sanguine regum venimus at nostro veniunt a sanguine reges.
“Nós não viemos do sangue dos Reis, mas do nosso sangue vêm os Reis.”
Fernando Soares Ramos
Da autoria da padre Alfredo Júlio Soares P. Coutinho Almas, cederam-nos um opúsculo intitulado «Figueiredos e Terras de Santa Maria» que trata largamente da genealogia desta família.
Antes da mais é nosso desejo informar qualquer leitor menos avisado de que não somos um historiador nato e, valha a verdade, não perdemos tempo a estudar os calhamaços dos Nobiliários. Quere-nos parecer, no entanto, que o estudo publicado pelo padre Almas se encontra eivado de erros, pelo menos no que concerne à parte que vai até aos primórdios da nacionalidade portuguesa.
No frontispício do Solar, reconstruído há poucos anos, pode ler-se a seguinte inscrição gravada no granito: «Paço da Vala – Casa dos Césares – Primeira Casa datada século III antes de Cristo – Condes de Sever 510 – Duques de Guterre 880 – Condes das Terras de Santa Maria 1124 – Barões de Sever 1290».
Desconhecemos inteiramente as fontes onde o autor teria recolhido todo o material para uma base sólida e firme do seu trabalho e permitimo-nos, modestamente, duvidar da sua autenticidade. É que a construção da História tem de assentar em documentos autênticos e iniludíveis para, a partir daí, se ajustarem os factos, coadunando-os no espaço e no tempo.
Na verdade, de uma mera análise do texto, facilmente se pode verificar a inconformidade e inconsistência do estudo apresentado. E isto ressalta precisamente de documentos datados do final do século IX, que nos dão conta da existência de um ilustre varão de nome Soeiro Gondesindes, que viveu na região e fez importante doação de terras, conforme atrás referimos. Ora no estudo apresentado pelo padre Almas, tal personalidade aparece-nos no início do século VI e a encabeçar a genealogia dos Figueiredos, o que de modo algum é verosímil, a menos que outro Soeiro Gondesindes tivesse vivido nessa época, o que não é crível, nem há documentos que no-lo atestem. Pelo menos assim o pensamos até que alguma prova irrefutável surja em contrário.
Entretanto, e apesar de tudo, não fugimos à tentação de apresentar à curiosidade do leitor a genealogia dessa Família tal como consta do mencionado opúsculo, que com a devida vénia transcrevemos:
1.º – D. Soeiro Gondesindo, conde Sevéri, que se fixou no território, visigodo, tendo dado o nome à terra, em 510. Era irmão mais velho de Teodorico Il;
2.º – D. Teodósio Gondesindo, também conde Sevéri, título que todos os descendentes usaram e que mais tarde, no tempo de D. Afonso III, foi considerado de Juro e Herdade, usado, portanto, por direito próprio.
3.º – D. Lucílio Gondesindo;
4.º – D. Mumio Gondesindo;
5.º – D. Lucília Martim Gondesindo;
6.º – D. Martim Afonso Gondesindo;
7.º – D. Teodósio Egas Gondesindo;
8.º – D. Gonçalo Martim Gondesindo, que governava estas terras quando da invasão dos árabes, e que tendo-se defendido com valentia, estes lhe propuseram a paz mediante o pagamento de um tributo de cem donzelas ao emir de Córdava.
9.º – D. Godofredo Afonso Garcia Gondesindo, que sustentou várias lutas com os árabes para se libertar do pagamento desse tributo;
10.º – D. Gaesta Gondesindo Ero de Figueiredo Ansur, que continuou essas lutas que acabaram com a derrota dos árabes na batalha de Clariiga, no ano de 882. Foi a partir desta batalha, que parece ter-se dado num campo de figueiras, que foi acrescentado ao seu nome o apelido Figueiredo, determinando que os seus descendentes não mais deixassem de o usar.
11.º – D. Ordonho Soeiro de Figueiredo;
12.º – D. Mem de Figueiredo, duque de Guterre;
13.º – D. Formariges Soeiro de Figueiredo;
14.º – D. Gilberto Muniz de Figueiredo;
15.º – D. Teodomiro Gaspar Muniz de Figueiredo;
16.º – D. Ero Gondesindo de Figueiredo;
17.º – D. Gurdesindo Egas Eris de Figueiredo;
18.º – D. Mem Lucílio de Figueiredo;
19.º – D. Mumio Viegas de Figueiredo;
20.º – D. Ermígio Viegas de Figueiredo;
21.º – D. Mumio Ermigues Viegas de Figueiredo;
22.º – D. Ermígio Muniz de Figueiredo. Foi este que, juntamente com D. Afonso Henriques e partindo do Castelo da Feira, forçou D. Teresa a uma derrota no Campo de S. Mamede.
23.º – D. Eanes Muniz de Figueiredo. Contribuiu para o alargamento do território, ajudando os dois primeiros reis na luta cerrada contra os sarracenos, tomando também parte na batalha de Navas de Tolosa.
24.º – D. Fernão Rodrigues Pacheco de Figueiredo, senhor do Couto de S. Fins, e valente alcaide-mor de Celorico.
25.º – D. Sueiro Martim de Figueiredo, que ajudou a conquistar definitivamente o Algarve. Foi este fidalgo o 1.º barão de Sever, cujo baronato foi instituído no reinado de D. Dinis, e o fundador dos morgados do Paço da Vala e de Figueiredo, no lugar da Senhorinha.
26.º – D. Ruy Vasco Esteves Sueiro Martim de Figueiredo. Tomou parte na batalha do Salado;
27.º – D. Semeão Pacheco de Figueiredo;
28.º – D. Gonçalo Garcia de Figueiredo;
29.º – D. Gonçalo Garcia de Figueiredo, do qual descenderam três filhos, que tomaram o partido do Mestre de Avis;
30.º – D. Ayres de Ataíde Gonçalves de Figueiredo, que tomou parte nas guerras com Castela;
31.º – D. Gil Eanes Pacheco de Figueiredo. Dobrou o Cabo Bojador;
32.º – D. Diogo Afonso Coutinho Pereira de Figueiredo;
33.º – D. Duarte Pacheco Pereira de Figueiredo, último alcaide do Castelo da Feira;
34.º – D. Vasco Esteves Lobo de Figueiredo;
35.º – D. Simão de Figueiredo. Bateu-se no cerco de Diu;
36.º – D. Cipriano de Figueiredo. Com um pequeno exército salvou a praça de Mazagão. Foi Governador dos Açores, seguindo o partido do Prior do Crato.
37.º – D. António Eanes de Figueiredo. Defendeu os nossos domínios em terras do Oriente, e ficou sepultado no mar em resultado de um acto de bravura;
38.º – D. Soeiro Martim de Melo de Figueiredo Lobo e Silva. Bateu-se na índia e no Brasil;
39.º – D. Diogo Lobo de Figueiredo. Tomou parte nas batalhas da Restauração onde se notabilizou.
40.º – D. Vasco Eanes Soares de Figueiredo. Tomou parte com seu pai na batalha de Montijo, apenas com 16 anos;
41.º – D. César Máximo de Figueiredo Lobo e Silva Pacheco de Moscoso Ataíde Pereira. Tomou parte, com seu Pai, na triunfal entrada em Madrid, em 1706;
42.º – D. César Máximo de Figueiredo Lobo e Silva. Tomou parte na vitória da batalha de Matapan, em 1716;
43.º – D. José Manuel César Máximo Martim de Figueiredo Lobo e Silva. Ajudou a sufocar a revolta de Minas Gerais, com a idade de 78 anos;
44.º – D. Manuel José César Máximo de Figueiredo Lobo e Silva. Tomou parte em todas as lutas durante as invasões francesas. Partidário de D. Miguel, exilou-se no estrangeiro;
45.º – D. José César Máximo de Figueiredo Lobo e Silva. Partidário de D. Miguel, atingiu em 1834, apenas com 26 anos de idade, o posto de coronel de cavalaria;
46.º – D. César Máximo de Figueiredo Lobo e Silva.
47.º – O Dr. Silvério César Máximo de Figueiredo Lobo e Silva, falecido há poucos anos.
(Nota: o autor do presente trabalho dispensou-se de transcrever todos os feitos desta ilustre Casa, por entender que os relatados chegam e sobram para a equiparar às mais altas linhagens destes Reinos).
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